Quarta-feira, 27 de Abril de 2011

A Máquina de Joseph Walser - Gonçalo M. Tavares

"- Já ninguém se calça assim.
Quantas vezes Joseph Walser havia escutado esta frase nas últimas duas semanas? O que estava a acontecer? Há anos que usava estes sapatos, ou sapatos semelhantes. Nunca o haviam incomodado por isso. Ninguém antes se havia importado minimamente com os seus sapatos, com a sua cor ou forma. Porquê agora?
Não me interessam os seus sapatos nem as suas ideias, compreendeu, excelentíssimo Walser? O que lhe disse ontem não tem importância nenhuma para mim, mas é de extrema importância para si. Consegue perceber a diferença? Consegue perceber a diferença que existe entre nós? Entre os meus sapatos e os seus sapatos, entre as minhas ideias e as suas ideias? Os seus sapatos não me interessam e as suas ideias não me interessam. Mas as minhas ideias interessam-no, é esta a diferença, entende?"


in: "A Máquina de Joseph Walser" de Gonçalo M. Tavares

Terça-feira, 19 de Outubro de 2010

Quando Lisboa Tremeu - Domingos Amaral

"Tive pena dela. A pena é um sentimento bonito de ter por quem sofreu, mas não deve ser revelada, pois é quase sempre sentida como um insulto pela pessoa que a provoca em nós. Por isso fiquei silencioso quando a ouvi. Sabia o que era esse desejo de morte, sentira-o muitas vezes enquanto estive preso pelos árabes. É profundamente destrutivo e perturbador, mas ao mesmo tempo muito humano. É querer acabar mais depressa só porque não se vê o futuro. Hoje apesar de estar de novo preso, não sinto o mesmo. Consigo imaginar um futuro só porque me lembro dela, de quanto a amei e ainda amo. Quando estive preso a primeira vez pelos árabes, há muitos anos, pensei também várias vezes em matar-me. O intermitente amor que tinha por outra mulher nem sempre me chegava para afastar essas ideias. Quando estamos condenados à morte, é muito fácil pensar no suicídio, é muito fácil enlouquecer. Sei disso porque já me senti louco. É um sentimento terrível e poucos são os que regressam dessa terra distante.

Então, abracei-a com força, emocionado. Ela sorriu-me, sem saber as razões do meu arrebatamento, pois não as revelei, e deu-me um curto mas mesmo assim saboroso beijo na boca, antes de prosseguir o seu relato."

In: “Quando Lisboa Tremeu” de Domingos Amaral

( Uma gentilesa de Ana Alya )

Segunda-feira, 11 de Outubro de 2010

A herança de Ezster - Sándor Márai

"A minha irmã Vilma odiava-me. Éva dizia a verdade; ardia entre nós uma espécie de ódio ancestral, uma paixão obscura e indefinível, cujo conteúdo se perdera no decurso dos anos. Não se poderia dizer com exactidão porque nos odiávamos porque eu também a odiava, sem sentir necessidade de aduzir razões ou pretextos não se poderia dizer rigorosamente que actos seus me magoaram, ou o que dissemos uma à outra para assim nos dilacerarmos. Ela foi sempre a mais forte, inclusive a odiar. Se lhe tivessem perguntado porque me odiava tão ferozmente, depressa enumerava acusações e razões; mas nada disso explicava tal ódio. Esquecêramos os pretextos. Ficava a paixão, esse sentimento fogoso e denso que inundava com aval anchas de lama todos os domínios humanos, e, quando Vilma morreu, restavam-me paisagens desoladas em vez de ligações familiares.
Aproximei a fotografia dos meus olhos míopes e observei-a com atenção. A força que os mortos têm! — pensei, impotente. Nesse instante, Vilma vivia de novo, graças às misteriosas transformações da existência pelas quais podem os mortos intervir, não raro, nas nossas vidas, mortos que julgávamos condenados a decompor-se nas profundezas da terra. Mas, um dia, reaparecem e entram em acção. Talvez seja hoje o dia de Vilma! — pensei. E lembrei-me da tarde em que agonizava, quando já só por segundos reconhecia quem a rodeava, quando eu chorava, ali, frente ao seu leito, e dela esperava uma palavra, uma palavra de adeus, de paz, de reconciliação, e, no entretempo, sabia que nem no capítulo da morte lhe perdoava, tal como ela não me perdoava na agonia da morte. Cobrira o rosto com as mãos e chorei. Então, ela disse: «Hás-de lembrar-te de mim!» Já delirava. Perdoou-me!, pensei, esperançada. Mas, secretamente sentia: «É uma ameaça.»"

in: A herança de Ezster de Sándor Márai

Rapariga com brinco de pérola - Tracy Chevalier

"Das quatro raparigas, Cornelia era, como revelara na primeira manhã, a mais imprevisível. Tanto Lisbeth como Aleydis eram meninas boazinhas, sossegadas, Maertge já tinha idade suficiente para começar a aprender os hábitos da casa, o que a disciplinava — embora de quando em quando tivesse um acesso de mau humor e gritasse comigo como a mãe por vezes fazia. Cornelia não gritava, mas por vezes era impossível de controlar. Mesmo a ameaça da ira de Maria Thins, a que eu recorrera no primeiro dia, nem sempre surtia efeito. Podia ser divertida e brincalhona num momento e a seguir mudar, como um gato a ronronar que morde a mão que o acaricia. Embora leal às irmãs, não hesitava em fazê-las chorar ao beliscá-las com força. Eu era cautelosa com Cornelia e não conseguia gostar dela como gostava das outras.
Escapava de todas elas quando limpava o estúdio. Maria Thins abria-me a porta e por vezes ficava uns minutos a ver um quadro, como se este fosse uma criança doente que estivesse a tratar. Porém, quando ela saía, ficava com a sala só para mim. Olhava em redor para ver se nada se modificara. A princípio parecia-me que tudo estava na mesma, dia após dia, mas depois que os meus olhos se acostumaram aos pormenores da sala comecei a reparar em pequenas coisas — os pincéis numa posição diferente em cima do armário, uma das gavetas deste escancarada, a espátula da paleta em equilíbrio na prateleira do cavalete, uma cadeira um pouco desviada do seu lugar junto à porta.
Contudo, nada se modificava no canto que ele estava a pintar. Tinha o cuidado de não mudar nada de sítio, adaptando rapidamente a minha maneira de tirar medidas, de modo que conseguia limpar essa zona quase tão depressa e com tanta precisão quanto o resto da sala. E depois de experimentar com outros pedaços de tecido, comecei a limpar o pano azul-escuro e o cortinado amarelo com um trapo húmido, que pressionava com todo o cuidado de modo a apanhar o pó sem desmanchar as pregas.
Por muito que olhasse, não me parecia que houvesse modificações no quadro. Por fim, certo dia descobri que havia sido acrescentada uma pérola ao colar da mulher. Outro dia, a sombra do cortinado amarelo tinha-se tornado maior. Pareceu me também que alguns dos dedos da mão direita dela tinham mudado de posição.
O manto de cetim começou a parecer tão real que me apetecia estender a mão e tocar-lhe."

in: Rapariga com brinco de pérola de Tracy Chevalier

Quarta-feira, 8 de Setembro de 2010

Rayuela - O Jogo de Mundo - Júlio Cortázar

"Gregorovius permitiu que lhe enchessem o copo de vodka e começou a beber delicadamente. Duas velas estavam acesas sobre o friso da chaminé, o mesmo local onde Babs guardava as meias sujas e as garrafas de cerveja. Através do copo transparente, Gregorovius admirou o arder desapegado das duas velas, tão alheias a eles e anacrónicas como a corneta de Bix que entrava e saía, vinda de um tempo diferente. Os sapatos de Guy Monod, que dormia no divã ou ouvia o disco de olhos fechados, causavam-lhe um ligeiro desconforto nas costas. A Maga veio sentar-se no chão com um cigarro na boca. A chama das duas velas verdes brilhava nos seus olhos: Gregorovius contemplou-a, extasiado, lembrando-se de uma rua de Morlaix ao anoitecer, um viaduto altíssimo, nuvens.
— Essa luz é tão você, algo que vem e que vai, que está sempre a mover-se.
— É como a sombra de Horácio — disse a Maga. — Faz-lhe crescer e diminuir o nariz, é extraordinário.
— Babs é a pastora das sombras — disse Gregorovius. — À força de tanto trabalhar o barro, essas sombras concretas... Aqui tudo respira, um contacto perdido restabelece-se; a música ajuda, a vodka, a amizade... Estas sombras no friso do tecto: a casa tem pulmões, algo que palpita. Sim, a electricidade é eleática, petrificou-nos as sombras. Agora fazem parte dos móveis e das caras. Mas aqui, no entanto... Repare nessa moldura, na respiração da sua sombra, na voluta que sobe e desce. Nessa altura, o homem vivia numa noite branda, permeável, em diálogo contínuo. Os terrores, que luxo para a imaginação...
"

in: O Jogo de Mundo de Júlio Cortázar

Segunda-feira, 26 de Julho de 2010

O Idiota - Fiódor Dostoiévski

“Por um tempo amaciado, de degelo, de fins de Novembro, cerca das nove da manhã, o comboio do caminho-de-ferro Petersburgo - Varsóvia aproximava-se a todo o vapor de S. Petersburgo. Estava tão húmido e havia tanto nevoeiro que amanhecia a custo; era difícil distinguir alguma coisa das janelas da carruagem a mais de dez passos à esquerda e à direita da linha. Entre os passageiros, alguns voltavam do estrangeiro; mas o grosso dos viajantes, gente simples e de trabalho, enchia a terceira classe e viajava de lugares não muito distantes. Como de costume, toda a gente estava cansada, de olhos pesados ao fim da noite, com frio, todos os rostos de um pálido amarelado, da mesma cor da neblina.
Numa das carruagens de terceira classe calhou ficarem frente a frente do lado da janela, desde o amanhecer, dois passageiros — ambos jovens, ambos quase sem bagagem, ambos com roupa longe de ser elegante, ambos dotados de notáveis fisionomias e ambos com vontade de, finalmente, meterem conversa um com o outro. Se soubessem um do outro o que sobretudo os tornava dignos de nota neste momento, decerto se espantariam que, de modo tão estranho, o acaso os tivesse sentado frente a frente numa carruagem de terceira classe do comboio Varsóvia - Petersburgo. Um era baixo, de uns vinte e sete anos, cabelo encaracolado, quase preto, olhos cinzentos pequenos mas flamejantes. Tinha o nariz largo e achatado, as maçãs-do-rosto salientes; os seus lábios finos formavam a cada instante um sorriso descarado, sarcástico, mesmo malvado; mas a fronte era alta e bem desenhada, compensando a rudeza da parte inferior do rosto. Era sobretudo notório neste rosto uma palidez mortal que dava ao jovem um aspecto extenuado apesar da sua compleição bastante sólida e, ao mesmo tempo, uma espécie de paixão próxima do sofrimento, em desarmonia com o seu sorriso atrevido e bruto e com o olhar brusco e presunçoso...”


in: O Idiota de Fiódor Dostoiévski

Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar? - António Lobo Antunes

“Toda a vida, antes da doença e durante a doença, a minha mãe contou-nos e contou-nos
— Oiçam isto
Que em pequena a minha avó acompanhava a minha bisavó de visita a senhoras que moravam em andares antigos na parte antiga de Lisboa, salas e corredores numa penumbra perpétua onde as pratas e as loiças a seguiam e a minha avó com dez ou onze anos a pensar
— Como esta casa deve ser triste às três horas da tarde
Porque era nas salas, nos corredores e nos esconsos também, com pantufas e vassouras, que chovia no inverno, não lá fora e não chuva tão pouco, uma surpresa nas coisas a condoer-se da gente, a minha bisavó e as senhoras moviam a boca sem palavras e no entanto falavam visto que um brilho de saliva, um dente, um sorriso diante do dente quando uma fotografia até então invisível surgia do escuro ou um espelho enodoado pelos mistérios do tempo duplicava os retratos num ângulo diferente que assustava porque não eram eles sendo eles, criaturas parecidas com os defuntos nos sonhos dirigindo-se aos vivos do alto de colarinhos de celulóide e plastrons de pintas, compreendia-se...”


In: Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar? de António Lobo Antunes

O Cavaleiro Inexistente - Italo Calvino

“Sob as muralhas vermelhas de Paris alinhava o exército de França. Carlos Magno devia passar em revista os paladinos. Há mais de três horas que estavam ali. Era uma tarde um pouco encoberta e enevoada de princípios de Verão. Nas armaduras fervia-se como numa panela posta a cozer a fogo lento. Talvez alguém, naquela fila imóvel de cavaleiros, tivesse perdido os sentidos ou simplesmente adormecido, mas a armadura mantinha-os firmes nas selas, todos da mesma maneira. De súbito, três vibrações de trompa: as plumas das cimeiras estremeceram no ar imóvel e cala-se, num instante, aquela espécie de mugido marinho que se tinha ouvido até ali, que era senão um sussurro...”

in: O Cavaleiro Inexistente de Italo Calvino

Cadernos do subterrâneo - Fiódor Dostoiévski

"Sou um homem doente... Sou um homem mau. Um homem repulsivo, é isso que eu sou. Acho que tenho alguma coisa no fígado. De qualquer modo, não entendo que raio de doença é a minha, não sei ao certo o que me faz sofrer. Não me trato, nunca me tratei, embora respeite a medicina e os doutores. Além do mais, é intolerável como sou supersticioso; enfim, o suficiente para respeitar a medicina. (Sou bastantemente instruído para não ser supersticioso, mas sou supersticioso.) Sim, é por maldade que eu não me trato. Aposto, meus senhores, que isso é uma coisa que não compreendeis. Mas eu, sim! Evidentemente, não serei capaz de explicar-vos a quem ando eu a tramar seguindo deste modo a minha maldade; sei perfeitamente que não ando a tramar os médicos quando recuso tratar-me; sou a pessoa mais bem colocada para saber que isso só a mim prejudica e a mais ninguém. Mesmo assim, se não me trato é por maldade. Dói-me o fígado. Tanto melhor, pois que me doa ainda mais!
Há muito tempo que vivo assim — vai para vinte anos. Agora tenho quarenta. Dantes era funcionário, agora já não. Era um funcionário mau. Grosseirão, era um gozo para mim sê-lo. Não aceitava luvas, estais a ver, tinha de ter a minha compensação — nem que fosse dessa maneira..."


in: Cadernos do subterrâneo de Fiódor Dostoiévski

Quinta-feira, 22 de Julho de 2010

A Rebelião das Massas - Ortega y Gasset

"Não somos arremessados para a existência como a bala de um fuzil, cuja trajectória está absolutamente pré-determinada. A fatalidade em que caímos ao cair neste mundo – o mundo é sempre este, este de agora – consiste em todo o contrário. Em vez de impor-nos uma trajetória, impõe-nos várias e, consequentemente, força-nos... a eleger. Surpreendente condição a da nossa vida! Viver é sentir-se fatalmente forçado a exercitar a liberdade, a decidir o que vamos ser neste mundo. Nem num só instante se deixa descansar a nossa actividade de decisão. Inclusivé quando desesperados nos abandonamos ao que queira vir, decidimos não decidir.
É, pois, falso dizer que na vida «decidem as circunstâncias». Pelo contrário: as circunstâncias são o dilema, sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter."


in: A Rebelião das Massas de Ortega y Gasset

Quinta-feira, 15 de Julho de 2010

O Senhor Juarroz - Gonçalo M. Tavares

"O aborrecimento
Como a realidade era para o senhor Juarroz uma matéria aborrecida ele só deixava de pensar quando era mesmo imprescindível. Eis algumas situações em que era obrigado a deixar de pensar:
— quando falavam com ele muito alto
— quando o insultavam
— quando o empurravam
— quando tinha de utilizar qualquer objecto útil à sua volta.
Por vezes, mesmo nas situações atrás descritas, o senhor Juarroz não saía dos seus pensamentos e por isso os outros supunham que ele:
— era surdo (porque não ouvia quando falavam com ele muito alto)
— era cobarde (porque o insultavam e ele não reagia)
— era muito cobarde (porque o empurravam e ele não reagia)
— era desastrado (porque pegava mal nas coisas, deixando-as cair ao chão).
No entanto, ele não era nem surdo, nem cobarde, nem desastrado. Simplesmente, para o senhor Juarroz, a realidade era uma matéria que aborrecia."


in: O Senhor Juarroz de Gonçalo M. Tavares

Quarta-feira, 14 de Julho de 2010

O Castelo dos Destinos Cruzados - Italo Calvino

"No meio de um bosque cerrado, um castelo dava refúgio a todos os que a noite surpreendesse em viagem: cavaleiros e damas, comitivas reais e simples viandantes.
Entrei por uma ponte levadiça desconjuntada, desmontei da sela num pátio escuro, enquanto alguns palafreneiros silenciosos se encarregaram do meu cavalo. Eu estava sem fôlego; mal me aguentava nas pernas: desde que entrara no bosque, tantas foram as provas por que havia passado, tantos os encontros, as aparições, os duelos, que já não conseguia restituir qualquer ordem nem aos movimentos nem às ideias.
Subi uma escadaria; dei comigo numa sala alta e espaçosa: muitas pessoas — decerto igualmente hóspedes de passagem, que me haviam precedido pelos caminhos da floresta — jantavam sentadas em volta de uma távola iluminada por candelabros."


in: O Castelo dos Destinos Cruzados de Italo Calvino

A República - Platão

"Ontem fui até ao Pireu com Gláucon, filho de Aríston, a fim de dirigir as minhas preces à deusa, e, ao mesmo tempo, com o desejo de ver de que maneira celebravam a festa, pois era a primeira vez que a faziam. Ora a procissão dos habitantes dessa terra pareceu-me linda; contudo, não me pareceu menos aprimorada a que os Trácios montavam. Depois de termos feito preces e contemplado a cerimónia, íamos regressar à cidade. Entretanto, Polemarco, filho de Céfalo, que, de longe, observou que estávamos de abalada, mandou o escravo a correr, para nos pedir que esperássemos por ele. Agarrando-me no manto por detrás, o escravo disse: Polemarco pede-vos que espereis -. Eu voltei-me e perguntei-lhe onde estava o seu senhor. — Está já aí — replicou —; vem mesmo atrás de mim; esperai. — Esperamos com certeza — disse Gláucon.
E pouco depois chegou Polemarco e Adimanto, irmão de Gláucon, Nicérato, filho de Nícias, e outros mais, com ar de quem vinha da procissão.
Disse então Polemarco: — O Sócrates, parece-me que vos estais a pôr a caminho para regressar à cidade.
— E não conjecturas mal — declarei.
— Ora tu estás a ver quantos somos? — perguntou ele.
— Pois não!
— Pois então — replicou — ou haveis de ser mais fortes do que estes amigos, ou tendes de permanecer aqui.
— Bem — disse eu — ainda nos resta uma possibilidade, a de vos persuadirmos de que deveis deixar-nos partir.
— Porventura seríeis capazes — replicou ele — de nos persuadir, se nos recusarmos a ouvir-vos?
— De modo algum — declarou Gláucon.
— Então compenetrai-vos de que não vos ouviremos.
E Adimanto acrescentou: — Acaso não sabeis que logo à tarde vai haver uma corrida de archotes a cavalo, em honra da deusa?
— A cavalo? — perguntei —. É coisa nova! É a cavalo que eles vão competir a passar os archotes uns aos outros? Ou que queres dizer?
— É assim mesmo — disse Polemarco —. E além disso vão celebrar uma festa nocturna, que merece ser vista. Portanto, vamos sair depois do jantar para ver a festa. Estaremos lá com muitos jovens e conversaremos. Fiquem, e não façam outra coisa.
— Bem parece que temos de ficar — confirmou Gláucon.
— Se assim te parece — observei eu —, assim deve fazer-se.
Fomos pois, a casa de Polemarco; e aí encontrámos Lísias e Eutidemo, irmãos de Polemarco, e também, além deles, Trasímaco de Calcedónia e Carmantidas de Paianieu e Clitofonte, filho de Aristónimo. Estava lá dentro também o pai de Polemarco, Céfalo. Pareceu-me bastante envelhecido, pois há tempos que não o via. Estava sentado numa cadeira almofadada, com uma coroa na cabeça, pois dava-se o caso de ele ter acabado de fazer um sacrifício no pátio. Sentámo-nos, então, junto dele, porquanto havia ali algumas cadeiras dispostas em círculo."


in: A República de Platão

Terça-feira, 13 de Julho de 2010

Histórias de Cronópios e de Famas - Júlio Cortázar

“Ter de ganhar o dia-a-dia todos os dias, esbracejar num mundo pegajoso, ter de acordar todas as manhãs num repugnante cubículo, e satisfeito que nem um cão por tudo estar nos seus lugares: a mesmíssima mulher, os sapatos de sempre, o eterno sabor da eterna pasta dentífrica, a mesma tristeza das casas fronteiras, a suja tabuleta com o letreiro HOTEL DE BELGIQUE.
Enfiar a cabeça como um touro vencido pela multidão transparente em cujo centro tomamos o café com leite e folheamos o jornal para saber o que aconteceu num ponto qualquer do globo. Não consentir que o acto delicado de girar o trinco da porta, acto que tudo poderia modificar, se cumpra com a fria eficácia de um reflexo quotidiano. Até logo, querida. Passa bem.
Apertar uma colher na mão e sentir o seu gemido de metal, a sua advertência suspeita. Dói negar uma colher, negar uma porta, negar tudo o que o hábito seduz com suavidade satisfatória. É tão mais simples aceitar a solicitude fácil da colher, usá-la para mexer o café.
E não há nada de mal em que as coisas nos não vejam mudar.
Que ao nosso lado esteja sempre a mesma mulher, o mesmo relógio e que o livro aberto sobre a mesa-de-cabeceira recomece a andar na bicicleta dos nossos óculos, por que haveria isso de ser mau? Mas há que baixar a cabeça como um touro triste e empurrar para longe o centro do globo de cristal, até outro tão perto de nós, inacessível como o picador tão perto do touro. Forçar os olhos para o que no céu aceita teimosamente o nome de nuvem, sua réplica catalogada na memória. Não penses que o telefone te irá dar o número que procuras. Por que razão to daria? Somente o que já tens preparado e pronto, o triste reflexo da tua esperança, esse macaco que se coça à mesa e treme de frio, chegará aos teus ouvidos. Escavada a cabeça a esse macaco, vai contra as paredes, rebenta-as. Alguém que canta no andar de cima! Nesta casa há um andar de cima, com outras pessoas! Um andar de cima onde vivem pessoas que nem imaginam o andar de baixo, e cá estamos todos na bola de cristal. E se de repente uma traça aparece na ponta de um lápis e palpita como um fogo cinzento, olha-a, eu olho-a, sinto esse coração pequeníssimo, oiço-a, a essa traça que vive na bola de cristal frio, nada está perdido. Ao abrir a porta, ao chegar à escada, saberei que a rua está já ali em baixo; não o molde imposto, não as casas conhecidas, não o hotel em frente: a rua, floresta viva onde cada instante pode invadir-me como uma magnólia, onde as caras começam quando as olho, quando avanço, quando com os cotovelos, pestanas e unhas me atiro minuciosamente contra a massa da bola de cristal, e arrisco a vida enquanto avanço passo a passo para ir comprar o jornal à esquina.”


in: Histórias de Cronópios e de Famas de Júlio Cortázar

Um Homem: Klaus Klump - Gonçalo M. Tavares

"Nada de novo. O dinheiro não é uma invenção
Do ar livre: foi criado nas fábricas,
Nos compartimentos espessos, nos grandes edifícios.
Na cidade o gosto a leite já lembra mais a máquina
Que a vaca. Entardece, e as meias que de manhã
Eram brancas são despidas em casa já negras.
O fumo baixo come lentamente os tornozelos
Ocupados. A cidade bebe vinho, e alguns pais
Distraídos cantam n canções pornográficas
Para as crianças dormirem. Se alguém ouvir o galo
Pensará de imediato que começou a catástrofe
De Uma Viagem à Índia"


in: Um Homem: Klaus Klump de Gonçalo M. Tavares